"Ele vem para mudar tudo": quando a Você S/A retratou o ofício que é o nosso
Em agosto de 2016, a revista Você S/A dedicou quatro páginas a uma profissão que a maior parte do mercado brasileiro ainda não sabia nomear: o gestor de turnaround. O título da reportagem, assinada pela jornalista Vanessa Vieira, resumia o espírito da função — "Ele vem para mudar tudo". E o personagem escolhido para abrir a matéria era o executivo paulistano Frank Koji Migiyama, hoje sócio-fundador da FKConsulting.PRO.
Dez anos depois, vale revisitar aquele retrato. Não por nostalgia — mas porque quase tudo o que a reportagem anunciava sobre a profissão se confirmou, e porque a rotina descrita ali continua sendo, no essencial, a rotina de quem faz reestruturação de verdade.
O retrato de 2016
A matéria encontrava Frank, então com 43 anos, dividido entre Goiânia — onde trabalhava de segunda a sexta — e São Paulo, onde a família ficava e os fins de semana aconteciam. Em janeiro daquele ano, ele havia sido contratado para assumir, por dois anos, a presidência de seis empresas do grupo Odilon Santos, com negócios em setores tão distintos quanto transporte público, ativos imobiliários, agronegócio e indústria alimentícia.
A missão, descrita pela revista: sanear as finanças de companhias em recuperação judicial e preservar cerca de 2.000 empregos. O tamanho do desafio aparecia na primeira aspa:
"É um trabalho que exige tomar decisões difíceis e no qual o desafio é encontrar soluções onde parece não haver solução possível."
— Frank Migiyama, à Você S/A (agosto de 2016)
Uma profissão nascendo com a crise
O pano de fundo da reportagem era o Brasil de 2016, mergulhado na pior recessão de sua história recente. A Você S/A citava dados da Serasa Experian: até junho daquele ano, 923 empresas haviam pedido recuperação judicial — alta de 87,6% sobre o mesmo período de 2015. Para efeito de comparação, em 2008 inteiro, apenas 312 companhias haviam recorrido ao instrumento. As fusões e aquisições, por sua vez, batiam recorde, com 210 operações no primeiro trimestre.
Nesse cenário, dizia a matéria, os gestores de turnaround estavam "no topo da lista dos profissionais mais requisitados às empresas de recrutamento executivo" — com a procura por presidentes e diretores financeiros com esse perfil dobrando desde 2015, segundo os headhunters ouvidos pela reportagem.
A rotina que a revista descrevia não tinha glamour, e a franqueza da descrição é talvez o que melhor envelheceu no texto:
"Você tem de ter disposição para trabalhar 14 horas por dia, porque tudo é para ontem. É preciso tomar decisões rápidas, com base em menos indicadores, e lidar com uma pressão muito forte. Com pouco caixa e pouca margem de manobra, não dá para errar."
— Frank Migiyama, à Você S/A (agosto de 2016)
O que a revista dizia que esse profissional precisa ter
A reportagem encerrava com um quadro — "Quem sabe faz ao vivo" — listando as competências esperadas de um gestor de turnaround, segundo os especialistas ouvidos. Vale reproduzir a essência, porque a lista continua sendo um bom checklist para quem contrata (ou quer se tornar) um executivo de reestruturação:
- Capacidade analítica — entender rapidamente um negócio e seus problemas, diagnosticar e agir com poucos indicadores;
- Aptidão ao risco — decisões de grande impacto, em pouco tempo, com poucos recursos e quase nenhuma margem de erro;
- Poder de negociação — envolvimento direto na renegociação de contratos com fornecedores e clientes;
- Boa comunicação — sem engajar o time, nenhuma mudança sai do papel;
- Resiliência — apresentar soluções mesmo em quadro pré-falimentar, num cenário muito adverso;
- Foco nos resultados — energia dedicada a metas de curto prazo;
- Equilíbrio emocional — lidar com a hostilidade de colegas, o desânimo das equipes e a ansiedade de acionistas e conselheiros.
Um dos recrutadores ouvidos resumia em uma frase que adotamos como régua até hoje: esse profissional tem de ser "20% estrategista e 80% executor". A ansiedade dos sócios, aliás, aparecia na fala do próprio Frank:
"Você tem de ter muito controle emocional e resiliência, porque precisa mudar rapidamente o status quo num ambiente hostil, de altíssimo estresse — afinal, quando somos chamados, geralmente os resultados não vão bem. Também é preciso fazer a gestão da ansiedade dos sócios."
— Frank Migiyama, à Você S/A (agosto de 2016)
Dez anos depois: o que o retrato anunciava
Relida em 2026, a reportagem funciona como um documento de época — e como uma profecia razoavelmente precisa. A profissão que a Você S/A apresentava ao grande público se consolidou; a onda de recuperações judiciais que a matéria registrava em seu início se tornou parte estrutural do ambiente de negócios brasileiro; e a figura do executivo interino especializado em crise deixou de ser exotismo para virar item de governança.
Para Frank, o caminho descrito ali — assumir companhias em dificuldade, com mandato definido, métrica clara e foco em preservar valor e empregos — continuou. Passou pela presidência de empresas como Cervejaria Malta e JR Diesel e, à frente da FKConsulting.PRO, pela gestão judicial da Agropecuária Tuiuti (Shefa), quando a Justiça precisou de um terceiro independente para manter uma fábrica de 1 milhão de litros diários operando. A escala mudou; a lógica é a mesma da matéria: decisões difíceis, prazo curto, e soluções onde parece não haver solução possível.
Há também um registro de método que resistiu ao tempo. A reportagem descrevia que o trabalho desses profissionais "começa com um diagnóstico, seguido de um plano de ação para alcançar as metas apontadas", com os primeiros 100 dias considerados decisivos — exatamente a espinha dorsal da metodologia que aplicamos até hoje: imersão, planejamento, execução e resultados, com sócios dentro da operação.
Por que guardamos essa matéria
Empresas contratam reestruturação num momento de vulnerabilidade — e têm o direito de saber quem está do outro lado da mesa. Uma reportagem de capa nacional, publicada por uma das maiores editoras do país uma década atrás, dizendo quem éramos antes de sermos contratados para os casos que vieram depois, é o tipo de lastro que nenhuma apresentação institucional substitui.
O título que a Você S/A escolheu — "Ele vem para mudar tudo" — descreve o gestor de turnaround. Mas a lição que os anos ensinaram é mais precisa: ele vem para mudar tudo o que impede a empresa de continuar existindo. O resto — a marca, os empregos, a cultura, os contratos — ele vem para preservar.
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